Grêmio tem um ‘cobertor curto' dentro e fora de campo
Enquanto Luís Castro permanece na busca de soluções para o time, diretoria, pressionada pelos resultados, busca diminuir as dívidas do clube
O segundo tempo da derrota para o Atlético Mineiro ratificou uma desconfiança intermitente no time do Grêmio. As entrevistas em Belo Horizonte, da mesma forma, ratificaram um cenário parecido ao que se vê em campo. No linguajar peculiar do futebol, o "cobertor curto" é quando um treinador tenta resolver um problema e arranja outro; já fora das quatro linhas é quando os dirigentes tentam sanar as dívidas, mas sofrem a pressão dos resultados, como agora.
Com a desvantagem mínima no placar, no domingo, Luís Castro fez três trocas no intervalo. Gustavo Martins por Kannemann e Pavón por Tetê não sinalizam o mesmo que Nardoni por Krovinovic. Em prol da bola no pé e da intenção de construir, a equipe ficou mais vulnerável e a derrota se transformou em goleada, situação similar à entrada de Dodi no lugar do mesmo Nardoni, quando o placar estava em 1 a 1 com o São Paulo, na Arena.
As tentativas repetidas ao longo da temporada, reconhecidas pelo próprio treinador, insuficientes para alcançar o equilíbrio do time, colocam o trabalho sob análise. O da diretoria na formação do elenco e na escolha do técnico; e o do próprio português em encontrar soluções com as peças que tem.
"De 2021 a 2025, o Grêmio teve sete treinadores. O grande Luiz Felipe Scolari, multicampeão, foi demitido. Vágner Mancini foi demitido. Mano Menezes não teve contrato renovado. Renato Portaluppi, multicampeão, campeão da América e da Copa do Brasil, figura com enorme serviço, maior jogador da história do Grêmio, foi vaiado e demitido. Roger, outro multicampeão, foi vaiado e demitido. Adiantou alguma coisa demitir sete treinadores e trazer outros? Então, temos de ter uma convicção. Temos convicção no trabalho. O trabalho vai continuar", garantiu, no domingo, o diretor-executivo Paulo Pelaipe.
CLUBE QUEBRADO
Outra fala do dirigente, no entanto, é que chamou mais a atenção. Ao afirmar que "O Grêmio está quebrado", Pelaipe, além de expor uma realidade que o torcedor deva acreditar, também tem o direito de relativizar. Afinal de contas, em oito meses da atual gestão, o investimento só no primeiro semestre foi superior a R$ 100 milhões, sem contar a comissão técnica, com vencimento milionário durante dois anos de contrato.
Foram 12 jogadores contratados e 22 que deixaram o clube, incluindo Leo Pérez presente nos dois grupos. Da lista, há os nomes com custo zero como Weverton e Caio Paulista, ambos liberados pelo Palmeiras e os estrangeiros Jovane Cabral e Krovinovic livres no mercado, assim como o recém chegado Danilo Barbosa.
Um exemplo fruto do cenário do futebol brasileiro é o de Matheus Nascimento. O atacante assinou por quatro anos em função de dívida antiga do Botafogo em relação a Cuiabano e Nathan Fernandes. Hoje na reserva de Pavón, Tetê custou cerca de R$ 40 milhões junto ao Panathinaikos, da Grécia.
Os maiores investimentos foram com dinheiro de investidores. Juntos, Pérez, Nardoni e Enamorado somarão ao final das contas aproximadamente R$ 60 milhões, sendo o ex-volante do Racing, a contratação mais cara da história do Grêmio: 8 milhões de dólares ao clube da Argentina.
JANELA DISCRETA
O segundo semestre é que mostra a busca pelo equilíbrio fora de campo também. A dupla egressa da Série B, Diego Caito e Wallace, teve boa parte dos direitos adquiridos por R$ 3 milhões, cada um. A diferença de valores injetados nos dois momentos de janela de transferência apontam para a realidade financeira atual. No entanto, esportivamente, o grupo segue com carências.
No dinamismo do futebol, o cenário de dois meses atrás já não é mais o mesmo. O treinador continua na busca de encontrar um time, o plantel sofreu alterações, mas a capacidade de "fazer dinheiro", por ora, está escassa após a única venda de jogador da base.
"O Viery estava na reserva, não jogava nunca. O Gabriel Mec e todos os outros que ele está lançando, o Pedro Gabriel, o Vitor Ramon na direita, vai estar no grupo, vai andar. E por aí vai. O Riquelme, o Jefinho, o Tiaguinho, tudo isso aí é nosso ativo, é ali que nós vamos sobreviver", era um trecho do áudio vazado pelo empresário Celo Rigo, justamente o maior parceiro da direção.
Fora a situação delicada na tabela do Brasileirão e a eliminação na Sul-Americana, a Copa do Brasil colocou dois Gre-Nais logo adiante, aumentado a tensão momentânea. E quando se trata de clássico e das consequências a partir dele, os problemas podem perder ou ganhar força. O cobertor curto terá um grande teste. E não será o último da temporada.
Fonte: Correio do Povo