Vale tenta garantias na futura concessão
Região articula pressão política para garantir uso turístico, investimentos e evitar continuidade do ciclo de abandono
Enquanto máquinas avançam sobre os trilhos destruídos entre Muçum e Vespasiano Corrêa, outra disputa ocorre longe da região. Está nos estudos técnicos da futura concessão ferroviária e no desenho logístico que deve definir o destino da Malha Sul a partir de 2027.
Hoje, a realidade é que o Vale do Taquari está fora dos planos para exploração no próximo contrato. Como resultado, não há garantia de aportes previstos dentro da nova modelagem ferroviária no Sul do país.
Esse é o cenário apontado nos estudos financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a Infra S.A. O diagnóstico indica baixa atratividade comercial para a Ferrovia do Trigo e para o Tronco Principal-Sul.
O levantamento em posse do Ministério dos Transportes estabelece como prioridade de investimentos o corredor Cruz Alta/Rio Grande, eixo voltado ao escoamento agrícola e portuário. A Ferrovia do Trigo, entre Roca Sales e Passo Fundo, e o trecho Mafra (SC) a Canoas ficaram fora das prioridades de carga.
Na prática, a leitura técnica considera que o fluxo ferroviário dos Vales, Serra e parte da região central não gera retorno econômico suficiente para atrair investimentos privados sem aporte estatal.
O tema mobiliza governo estadual, líderes empresariais e representantes políticos. A principal preocupação é de que o futuro modelo concentre interesse privado apenas nos corredores mais rentáveis, ampliando o abandono da malha gaúcha no interior do Estado.
Destino da ferrovia
Situação da ferrovia no RS
Extensão total: 3.823 km
Em operação: 921 km
Bloqueados ou interrompidos: 759 km
Restante: subutilizado, sem operação regular ou abandonado
Apenas 24% da malha gaúcha concedida opera
Prioridade federal
Cruz Alta a Rio Grande
Principal corredor de cargas do RS
Ligação estratégica com o porto
Ferrovia do Trigo
Roca Sales a Passo Fundo
Fora da prioridade
Região defende uso turístico permanente
No Vale do Taquari
Trecho em recuperação
Vespasiano Corrêa a Muçum 16 quilômetros
Investimento: R$ 6 milhões
Recursos do governo do Estado
Coordenação da Amturvales
Objetivos
Retomar parte do Trem dos Vales
Reorganizar a operação turística
Criar base para recomposição dos 46 km completos
Pressão em Brasília
Com recursos federais da Defesa Civil
Ampliação do projeto com inclusão de Santa Tereza
Novos roteiros ligados ao vinho e gastronomia
Investimento estimado
Entre R$ 60 milhões e R$ 100 milhões
Reunião prevista para 25 de maio
Turismo no edital
Sem competitividade no transporte de cargas, o Vale do Taquari tenta construir alternativa baseada no turismo ferroviário. A principal reivindicação é que o futuro edital da concessão reconheça oficialmente o uso turístico da Ferrovia do Trigo.
O objetivo é garantir segurança jurídica para investimentos permanentes no Trem dos Vales. “Tendo previsto em contrato o uso turístico, sem precisar buscar autorizações para operar, seria possível manter passeios mais recorrentes”, afirma o presidente da Amturvales, Rafael Fontana.
Segundo ele, isso abriria espaço para parcerias público-privadas voltadas à manutenção e operação contínua do passeio ferroviário. “Só precisaríamos da reforma garantida, aos moldes do que se tinha antes das inundações, poderíamos fazer uma parceria público-privada para custear manutenção e operação a partir dos passeios turísticos.”
Na avaliação dele, mesmo uma eventual prorrogação da concessão da Rumo ainda seria menos danosa do que deixar a malha ferroviária sem operador definido. “Melhor que seja prorrogado do que deixar como está. Pois teríamos abandono completo”, afirma Fontana.
Fonte: Grupo A Hora