Borré se fortalece no ataque do Inter, mas função pode mudar
Chegada do centroavante Alerrandro renova discussão pela melhor maneira de aproveitar o colombiano, destaque no começo de 2026
No futebol existem alguns dogmas. Um deles é de que o “campo fala”, usado quando não há explicação que porventura desabone o que acontece dentro das quatro linhas. Ao mesmo tempo, fatores extracampo ou alheios à vontade do jogador interferem, sim, no comportamento e no desempenho. No Inter, o Borré do começo de ano tem sido o que dele se espera desde sua contratação, em 2024.
Agora, com a chegada de Alerrandro, goleador do Campeonato Brasileiro de 2024, junto com Yuri Alberto, o torcedor colorado mais cético recordará o passado recente, quando não deu liga entre o colombiano e seu antigo companheiro Valencia. Motivos podem ter ser vários, do emocional ao tático, mas antes de qualquer objeção, Paulo Pezzolano antecipou o desejo de vê-los juntos em ação.
“Pode jogar com o Borré tranquilamente, porque o Borré pode jogar de segundo atacante. Vamos ver como vai ser. Acho que eles podem jogar juntos”, disse o treinador, que não esperou para usar o novo camisa 9 em ação. Para ganhar ritmo, colocou Alerrandro nos minutos finais no Maracanã, mas justamente no lugar de Borré, autor do golaço da noite.
Contra o Atlhetico, no Beira-Rio, quando não teve Carbonero desde o começo, Pezzolano surpreendeu: "Alan Patrick jogou onde gosta de jogar, jogou de segundo ponta". O campo, porém, “falou” e o camisa 10 não mais apareceu por ali. As experiências no futebol nem sempre saem como se imagina, o que é natural, ainda mais em começo de trabalho.
“Numa equipe, duas das posições fundamentais são goleiro e centroavante. Dificilmente um time terá êxito sem expoentes nessas duas atividades. Mas é essencial para que o número 1 e o número 9 – sou dos antigos que definem posição pelo número – tenham destaque e confiança, de ter o crédito do ambiente, dos companheiros, da direção e principalmente do treinador”. A opinião veemente é do ex-presidente Fernando Carvalho.
O ex-dirigente do clube refere-se a Borré. O centroavante é uma das funções do futebol protegidas pelos dogmas: a de que vive de gols ou de que tem como profissão na carteira de trabalho, por exemplo. Conhecedor do Beira-Rio como poucos, Carvalho aponta, mesmo de fora, o que aconteceu com o camisa 19 do final do ano para cá: “Caiu em descrédito perante o torcedor, perdeu totalmente a confiança, passou a simplificar jogadas, não mais arriscou e virou centroavante comum. Com o ingresso de Pezzolano, Fabinho Soldado e Abelão no vestiário, foi valorizado, passou a ter confiança, começou a arriscar tentando lances difíceis que outrora refugava e vieram as boas atuações, os passes para gols e finalmente os gols.”
Desde que chegou ao Inter, Borré soma 24 gols. São 11 no primeiro ano, oito na temporada passada e cinco na arrancada de 2026. Ou seja, em menos de um mês de bola rolando, mais do dobro de bola na rede em relação ao ano passado.
Estratégia, questões táticas e geracionais
Se o campo pode falar e nem todo mundo escutar, os números podem provar, mas não dizer tudo. Há dezenas de atacantes bem mais importantes e decisivos do que propriamente artilheiros na história de clubes. Nesse aspecto, as alterações de modelos de jogo com o passar do tempo atingiram a última linha dos times. Se nas gerações dos anos 1980 e 1990, quase toda formação tinha uma dupla de frente, há mais de uma década três jogadores têm formado o ataque. E nem todos eles com vocação artilheira, pois a fase defensiva começa por eles e isso afeta os dados estatísticos, principalmente dos que atuam pelo lado do campo.
Na atual formação de Pezzolano no Inter, no 4-2-3-1, o quarteto final tem Vitinho, Alan Patrick e Carbonero; Borré. Diante do Flamengo, o treinador preencheu mais os espaços e levou Carbonero um pouco para dentro. A ver onde e como poderá ser experimentado o último reforço do Inter.
“O Borré sabe se movimentar, mas não é um passador. A jogada do gol (contra o Flamengo) é do Carbonero como segundo atacante em lance individual, servindo, e ele como finalizador. Não sei se ele teria essa condição de fazer isso para o Alerrandro, porque esse é bem mais de área do que qualquer outra coisa”, diz Adailton, ex-atacante da época dourada das duplas de ataque e hoje auxiliar técnico.
Da mesma geração e na condição de ídolo da torcida do Inter, Christian vai além das questões táticas e geracionais. Para ele, escolher os jogadores a serem contratados é estratégia fundamental dos dirigentes para as coisas começarem a dar certo. Para ele, do trio que chegou a ter Valencia, Alario e Borré, apenas o argentino era centroavante, e o equatoriano sofreu pela cobrança para ser o que não é.
“O Borré é a mesma coisa. Ele é um segundo atacante que precisava de um cara de referência. Não é artilheiro. Querer transformar um segundo atacante em cara que joga de pivô é impossível. E pelos lados, tendo que voltar para marcar, vai perder eficácia e diminuir o número de gols”, alerta o ex-centroavante.
Longe de ser um problema, Pezzolano, respaldado pela condução do elenco até aqui, terá tempo para experimentar Borré e Alerrandro da maneira que bem entender. Se o time responder como vem respondendo, para o treinador e para o torcedor, a explicação é o de menos.
Fonte: Correio do Povo